Verdades inconvenientes sobre o Bolsa Família



Virou moda entre alguns segmentos da sociedade criticar o Programa Bolsa Família. As críticas têm como fundamentação argumentos duvidosos, e em muitos casos, preconceituosos. Obviamente as críticas surgem daqueles que não recebem o benefício, mas como possuem acesso aos diversos meios de comunicação, acabam difundindo abertamente seu pensamento. Entre os argumentos floreiam os que tratam sobre a "preguiça de trabalhar" por parte de quem recebe o benefício, ou então de que estamos criando uma "geração de parasitas do estado", entre outros absurdos.

Superando essa interpretação superficial e preconceituosa, podemos analisar o Bolsa Família como um importante instrumento de redistribuição de renda, fixação do homem ao campo, de valorização do trabalho, de resgate da cidadania e da dignidade de grande parte dos brasileiros, outrora relegados a própria sorte, etc.

Digo que é um programa de redistribuição de renda por motivos óbvios. Se parcelas da população que nunca tiveram acesso a recursos públicos passam a ter direito, é porque outra parcela repassa recursos para esses. Isso é redistribuir renda, tirar de quem tem para quem não tem!

Digo também que é um programa de fixação do homem no campo. Isto é, na medida em que as pessoas não vivem somente do plantio de subsistência (dependente completamente das condições climáticas e, portanto, incerta), com o auxílio do Bolsa Família eles não vislumbram a necessidade de sair de suas regiões para buscar a sobrevivência nas cidades. Logo, é um programa que reduz o fluxo migratório campo-cidade.

Contrariamente aos argumentos que acusam os beneficiários do Bolsa Família de preguiçosos, o Programa valoriza sim o trabalho. Mas o trabalho digno! Se no passado recente os trabalhadores do campo precisavam vender sua força de trabalho cada vez mais barato para sobreviver, com o benefício, podem valorizar seu trabalho. Não precisam mais "trabalhar por um prato de feijão" e exigem remuneração maior do que a do benefício. O que acontecia muito no passado recente era que a classe média (não toda, claro) "contratava" trabalhadores/as para o serviço doméstico praticamente em troca de alimentação. Isso agora ficou bem mais difícil de acontecer.

Por último, e não menos importante, foi o resgate da cidadania e da dignidade dos mais pobres. Até então pouco, ou quase nada, tinha sido feito em defesa dos seus direitos, e o Bolsa Família mostrou que eles também são brasileiros e, portanto, têm direito a assistência social por parte do Estado. Só quem anda pelo interior do Brasil sabe do que estou falando!

Agora, o que não vejo ninguém falar é que TODOS receberam ou recebem "bolsas" do Governo, seja na forma de crédito estudantil, redução de impostos para compra do carro novo ou do imóvel novo, ou então da troca de equipamentos da chamada "linha branca", que também tiveram redução de impostos recentemente, entre outros tidos de "bolsas".

Portanto, o debate merece ser tratado de forma mais qualificada, e não ficar apenas na superficilidade dos argumentos fáceis, mas de difícil sustentação diante dos fatos como um todo.

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