O pessimismo antibrasileiro do O Globo

Por Miguel do Rosário, no Gonzum (ex-Óleo do Diabo)

O Brasil deve crescer de 7,5% a 8% este ano, o maior crescimento em 24 anos. Mas essa comparação é enganosa. O crescimento verificado no início da redemocratização, sob o governo Sarney, vinha  acompanhado de inflação galopante, desemprego em alta e uma dívida externa insustentável. A situação atual, portanto, não encontra paralelo nas últimas décadas. Durante a ditadura, houve picos de crescimento, mas igualmente amparados no endividamento externo e num cenário de profunda concentração de renda. Talvez pudéssemos lembrar dos “anos dourados” da era Vargas, sempre mencionado por setores sindicais por causa do alto valor do salário mínimo da época. Mas estes salários eram uma realidade somente em ilhas de prosperidade, como o Rio de Janeiro dos anos 30 ao 50, sede do governo – e era sustentada em parte pela proliferação de estatais (necessárias, mas que geravam vagas somente aqui), em parte pelo estágio ainda não avançado das indústrias, que exigiam grande quantidade de mão-de-obra para funções que, hoje, são desempenhadas por robôs. O crescimento econômico da época restringia-se a poucas regiões do país.

O crescimento econômico de 2010 inclui ampla distribuição de renda, tanto a nível regional, com maior desempenho de áreas menos desenvolvidas, como Norte e Nordeste, como a nível de classe, com inclusão social de milhões de pessoas antes alijadas do mercado de consumo.

Em suma, sem querer parecer ufanista, atendo-se unicamente aos números, o crescimento que devemos registrar nesse peripatético ano de 2010 corresponde a recorde absoluto na história brasileira moderna. E como seria ridículo atribuir a qualquer ano de nossa triste história pré-abolição qualidades superiores aos de nossa recente e pujante democracia republicana, não seria nenhum absurdo afirmar que 2010 será o melhor ano jamais vivido pelo Brasil!

Jornalismo econômico se faz comparando, e para isso se exige parâmetros racionais. Por exemplo, se o Haiti crescer, no ano que vem, 20%, e o Brasil, 5%, seria estupidez ou mau caratismo (ou ambos) menosprezar os números brasileiros em função dos haitianos.

Pois é justamente isso o que a nossa famigerada mídia faz sistematicamente. Repare a manchete do Globo desta sexta-feira, 10 de dezembro de 2010:

Brasil cresceu na era Lula menos que emergentes e AL

Quem são esses emergentes? Quem é a América Latina? Vamos ao caderno de Economia do jornal, onde está a matéria que originou essa melancólica manchete platinada:

O Brasil e os outros emergentes

Em relação à América Latina, o Brasil só pode ser comparado, por seu tamanho, ao México e um pouco à Argentina. O crescimento desta última tinha que ser muito grande mesmo, em virtude do rombo terrível vivido pelo país na década de 90, por ter seguido políticas neoliberais. Observe que a média de crescimento da Argentina nos anos de 2003 a 2010, de 7,3%, deve nos trazer à lembrança um nome, ou melhor, um sobrenome, Kirchnner. Sempre que você ler uma matéria nos jornais bombardeando o casal K, lembre-se que os presidentes Nestor Kirchner e sua sucessora, Cristina, tiraram a Argentina do buraco. E lembre-se também que a Argentina, nesse mesmo período, tornou-se a segundo maior compradora de produtos brasileiros, superando os Estados Unidos; e mais, a Argentina consolidou-se como o grande destino de nossos manufaturados; sim, porque a China é uma grande parceira comercial, mas ninguém enfatiza o fato dos chineses importarem somente matéria-prima barata do Brasil, enquanto a Argentina importa sobretudo autopeças, máquinas e aparelhos elétricos brasileiros.

Em relação aos “emergentes” que teriam crescido mais que o Brasil, na verdade a matéria se refere ao BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). Vejamos: a China é incomparável. Ela tem que crescer muito porque sua renda per capita é baixíssima, e pode crescer rápido porque toda ditadura tem facilidade para gerir política econômica. A história mostra que os ditadores, quando são competentes tecnicamente, tem vantagens enormes para gerenciarem grandes projetos de crescimento. Não tem imprensa enchendo saco. Não tem Ibama enchendo saco. Não tem Tribunal de Contas. Não tem CPI. A ordem é construir a maior hidrelétrica do mundo? Remove-se 10 milhões de pessoas sem choro nem vela, alaga-se paraísos naturais, impõe-se silêncio a qualquer crítica, e faz-se a usina, ponto final. Assim até eu!

Quanto à Índia, é um país igualmente com renda per capita baixíssima, com grande parte da população totalmente marginalizada de tudo, vivendo em miséria absoluta, trabalhando a qualquer preço. O Brasil poderia, pelo tamanho da população, ser comparado à Rússia, que cresceu numa média de 4,8% nos últimos anos. Mas a Rússia não distribuiu renda, não controlou a inflação nem tem uma economia diversificada como a brasileira. Seu crescimento baseou-se unicamente na indústria do petróleo.

Portanto, e agora já com medo de parecer um ufanista ridículo, também se poderia afirmar que o crescimento do Brasil de 2003 a 2010 apresenta muito mais qualidades do que o dos outros países do Bric e do resto da América Latina. A manchete do Globo escamoteia a realidade. Como a maioria das pessoas sequer lêem com atenção as matérias do caderno econômico, restringindo-se a um passar de vista sobre as manchetes, o substrato informativo que fica na mente do leitor é confuso e equivocado.

E por que o Globo faz isso?

Ora, porque a orientação dos editores do Globo, assim como de toda grande imprensa, é filtrar qualquer notícia que possa beneficiar politicamente o governo Lula.

Eu tento ver o lado positivo de tudo isso. O crescimento do Brasil está quase acima do recomendado, tanto que há um pico inflacionário (nada grave, mas que requer atenção). O negativismo do Globo serviria para esfriar o entusiasmo excessivo das massas consumidoras. Mas não é essa a intenção do Globo, nem a imprensa deve assumir esse papel triste e obscuro de puxar para baixo o astral de um país, por uma duvidosa estratégia macro-econômica. O que o Globo faz é puro desespero de torcer a realidade. O resultado, embora pífio (vide a popularidade recorde de Lula, que periga chegar a 100% até o fim do mandato), tem como objetivo manter viva um núcleo de antipetismo, que servirá de base para a construir a estratégia de oposição ao governo Dilma nos próximos quatro anos e emplacar Aécio Neves em 2014. Não podemos subestimar a oposição midiática, que sequer se preocupa em disfarçar melhor suas intenções. Veja como a matéria termina:

E se o Brasil conseguiu avançar no governo Lula, isso também se deveu aos esforços da era FH, destacou Agostini:

- São dois momentos. É que nem Maradona e Pelé.

O economista da Cepal não está totalmente errado. Todos os presidentes anteriores a Lula participaram um pouco da situação atual. Mas por que essa obsessão em defender FHC? Por que não usar o espaço para trazer mais informações sobre a qualidade do nosso crescimento? Por que a insistência em diminuir o valor simbólico do espetacular crescimento econômico de nosso país em 2010, num ambiente internacional fortemente negativo, com as grandes potências em crise?

Claro que há problemas graves que devem ser abordados. Há outras matérias na mesma edição mencionando o aumento forte das importações e o perigo que isso traz para a indústria nacional. O que me espanta é não haver, em parte alguma do jornal, uma grama de alegria com o desempenho recorde da economia. Essa obsessão por uma visão negativista, irritada, rancorosa, de toda notícia boa para o Brasil, não estaria por trás desses surtos de ódio que explodiram nas últimas eleições? Arriscaria-me até a dizer que ela tem alguma influência sobre as manifestações racistas e homofóbicas que vemos em São Paulo, pois não posso crer que alguém que vê o Brasil com otimismo e esperança, e que votou em Dilma Rousseff, possa cometer o desatino de espancar gratuitamente uma pessoa apenas porque ela é gay ou nordestina. Sei que a maioria dos eleitores do Serra são pessoas boas, simples, honestas e pacíficas. Mas há uma minoria barulhenta, reacionária, cujo ódio é alimentado pela interpretação negativa de qualquer coisa boa que exista no Brasil. Onde está o governador eleito Geraldo Alckmin que até agora não fez declarações enfáticas contra os atos de agressão em São Paulo? Onde está Serra?

Eu não sou nenhum fanático do otimismo; ao contrário, procuro alimentar uma visão do mundo que seja imparcial neste sentido. Há coisas que se deterioram, outras que evoluem. Mas é claro que o otimismo tem uma função biológica e psicológica fundamental para o progresso de indivíduos e nações. Como dizia um grande filósofo (William James) dos Estados Unidos, nação fundada sobre um otimismo inquebrantável, messiânico: O pessimismo conduz à fraqueza, o otimismo ao poder

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