Mídia: A defesa dos privilégios

Publicado originalmente no blog http://www.nogueirajr.blogspot.com/

Assim como ele, também me senti atingido pela difamação promovida pela Folha.


Eu não ia falar sobre isso. Não gosto de fazer críticas diretas a artigos de colegas, mas não sou capaz de resistir às barbaridades cometidas por Fernando Rodrigues na página de Opinião (A2) da Folha desta quarta-feira (29/12). Em um texto intitulado “Bomba-relógio” o autor desfia um rosário de preconceitos, desconhecimento e desrespeito ao trabalho de milhares de jornalistas que atuam cotidianamente para informar seus públicos em 8.094 veículos de todas as mídias, de 2.733 municípios de todo o Brasil. O articulista comentou a notícia de que nos oito anos do governo Lula o número de veículos que recebeu publicidade do governo aumentou de 499 para 8.094, um salto de 1.522%.

Ontem publiquei um artigo falando sobre isso (http://ow.ly/3wiUm). Para mim, este é um dos feitos mais importantes do governo Lula. Ajudou a financiar a produção de jornalismo em milhares de pequenas redações de jornais, emissoras de rádios e sites de internet Brasil a fora. São veículos que certamente estão fora do circuito “Elizabeth Arden” da mídia, informam públicos distintos dos jornalões da grande imprensa, mas que tem um papel relevante na formação e na informação da cidadania. Nas palavras do articulista, “Milhares de rádios e blogs pelo país agora recebem de R$ 1.000,00 a R$ 3.000,00 por mês. Se um presidente ousar cortar tal despesa terá de encarar as imprecações incessantes dessa turba”... “Lula criou uma bomba-relógio quase impossível de ser desarmada”.

A má fé e a desinformação desse articulista é uma ofensa quase pessoal a cada um dos editores que acorda diariamente pensando no que irá oferecer a seu público, leitores que são parte da sociedade brasileira e, assim como necessitam de água, comida, habitação e educação, precisam de jornalismo de qualidade, que custa dinheiro, como também podem atestar os gestores dos 499 veículos que recebiam (e não pararam de receber) verbas da publicidade oficial. Mas que certamente receberam um quinhão menor, será que é esse o ponto do senhor Fernando Rodrigues?

Conheço pessoalmente algumas dezenas desses editores que com legitimidade e dignidade enfrentam lutas cotidianas contra adversidades que vão de prefeitos e vereadores corruptos, empresas sem compromissos éticos e falta absoluta de recursos para manter a circulação de seus veículos. No entanto, todos os dias seus públicos são abastecidos de informações, reportagens e artigos que ajudam a contextualizar a realidade e apoiam a tomada de decisões. Certamente alguns não conseguiriam passar nos “cursinhos de redação” oferecidos pelos jornalões. Outros, no entanto, são capazes de dar lições de jornalismo a muita gente.

Como disse antes, não gosto de criticar colegas, mas me dou ao direito de escolher meus colegas. Vamos debater jornalismo, mídia, modelo de financiamento à informação para a sociedade e não apenas rosnar contra mudanças que tem o potencial transformador que este país tanto precisa.

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