O mito do desenvolvimento econômico




RESUMO DO LIVRO:

Livro: “O mito do desenvolvimento Econômico”
Autor: Celso Furtado

Capítulo 2: A evolução estrutural do sistema capitalista

    Futado coloca uma questão como ponto de partida da sua análise da evolução do sistema capitalista: que opções se apresentam aos países que sofreram a deformação do subdesenvolvimento, em face das presentes tendências do sistema capitalista?
    A doutrina usualmente aceita afirma que “a medida em que o resto da economia mundial se desenvolve economicamente, ela seguirá basicamente os padrões de consumo dos Estados Unidos”. Aceitar tal explicação é desconsiderar a especificidade do fenômeno do subdesenvolvimento.  A ela se deve a confusão entre economia subdesenvolvida e “país jovem”; e a ela se deve a concepção do desenvolvimento como uma sequência de fases necessárias, á la Rostow.
    Quando observamos de forma panorâmica a economia mundial no decorrer do século XIX, particularmente na sua segunda metade, percebemos que as enormes transformações ocorridas deram-se em torno de dois processos: o primeiro diz respeito a uma considerável aceleração na acumulação de capital no sistema produtivo, e o segundo, a uma não menos considerável intensificação do comércio internacional.
    Ambos os processos engendraram aumentos substanciais da produtividade do fator trabalho, dando origem a um fluxo crescente de excedente que seria utilizado para intensificar ainda mais acumulação e para financiar a ampliação e diversificação do consumo privado e público. Como foi apropriado esse excedente e como foi orientado sua utilização constituem o problema fundamental no estudo da evolução da capitalismo industrial em seu processo de amadurecimento.
    Durante uma primeira fase, o excedente foi canalizado para a Inglaterra, transformando Londres no centro orientador das finanças mundial. Financiando investimentos em infraestrutura em todo o mundo em função dos interesses do comércio internacional, promovendo e consolidando a implantação de um sistema de divisão internacional do trabalho, que marcaria definitivamente a evolução do capitalismo industrial. Com isso, se acelerou a concentração geográfica de acumulação do capital, em função das economias externas e das economias de escala da produção.
    A segunda fase da evolução do capitalismo industrial está marcada pela reação contra esse projeto britânico.  É o período marcado pela consolidação dos sistemas econômicos nacionais dos países que formariam o clube das economias desenvolvidas do século atual. O Estado Nacional assumiu funções mais amplas na direção do processo de acumulação. Por toda a parte essa orientação levou a alianças de classes e grupos - burguesia industrial, comercial e financeira, proprietários rurais, burocracia estatal - em torno de um “projeto nacional”, com repercussões significativas na evolução do capitalismo industrial.
    Com isso, a evolução dos termos de intercâmbio tendeu a ser desfavorável à periferia do sistema, isto é, aos países fornecedores de produtos primários, e a acumulação continuou a concentrar-se no centro, agora transformado num grupo de países com distintos graus de industrialização.
    A passagem de país produtos primário para industrial não ocorreu com base no livre mercado (o Laisse faire), mas por determinação e resultado de uma política deliberadamente voltado para este fim.
    Uma vez que o atraso relativo alcança certo ponto, o processo de industrialização sofre importantes modificações. Já não se orienta para formar um sistema econômico nacional e sim para complementar o sistema econômico internacional.
    Esse sistema industrial formado em torno de um mercado previamente abastecido do exterior, vale dizer, engendrado pelo processo de “substituição de importações”, é específico das economias subdesenvolvidas. Contudo, tal processo tende a reproduzir em miniatura sistemas industriais apoiados em um processo muito mais amplo de acumulação de capital. Na prática, ela assume a forma de instalações no país de uma série de empresas dos países centrais, reforçando a tendência de reprodução dos padrões de consumo de sociedades de muito mais elevado nível de renda média. Daí resulta a conhecida síndrome de tendência à concentração da renda, tão familiar a todos os que estudam a industrialização dos países subdesenvolvidos.
    A rápida industrialização da periferia do mundo capitalista, sob orientação dos países centrais, corresponde a uma terceira fase na evolução do capitalismo industrial. Tal fase teve início com a estruturação de um espaço econômico unificado no centro do sistema econômico capitalista, com a criação do GATT, Mercado Comum Europeu, entre outros. Tal unificação permitiu que grandes empresas se implantassem em todos os sistemas nacionais.
    Os oligopólios, uma forma mais sutil de monopólio (mais duramente combatido), permite que  um pequeno grupo de grandes firmas criem barreiras à entrada de outras empresas em um setor, e administrem conjuntamente os preços, conservando, contudo, autonomia financeira, tecnológica e administrativa.
    A forma oligopolista de coordenação de decisões, constitui poderoso instrumento de expansão econômica. A enorme capacidade financeira que essas firmas tendem a acumular leva-as a buscar e diversificação, dando origem ao conglomerado internacional, que é a forma mais avançada da empresa moderna.
    A grande força da indústria oligopolista deriva de que ela trabalha em mercado organizados, possuindo condições de administrar preços e, portanto, de assegurar autofinanciamento e poder planejar suas atividades a longo prazo.
    Os oligopólios, por sua vez, tendem a coordenar não só a produção de um produto, mas de um conjunto de produtos até certo ponto substituíveis. Exemplo claro a indústria petrolífera, que se diversificou no campo da petroquímica e também em setores concorrentes, como a indústria  do carvão à energia atômica.
    Se observarmos em conjunto as duas linhas de diversificação, a vertical e a horizontal, veremos que uma empresa que se expande nessas duas direções tende a ser levada a controlar atividades econômicas na aparência totalmente desconectadas entre si. A partir de certo momento, as vantagens da diversificação passam a ser estritamente de caráter financeiro, pois o excesso de liquidez de um setor pode ser utilizado por outro, ocasionalmente mais dinâmico.
    Esse tipo de coordenação pode ser obtido por meio de instituições financeiras, por definição muito mais flexíveis. Esse processo evolutivo tende, portanto, a levar a uma coordenação financeira, através de instituições bancárias e semelhantes, e a uma coordenação oligopolizada, no plano operacional.
    Operando simultaneamente em vários países e realizando transações internacionais, dentro do mesmo grupo, as grandes empresas oligopolistas tenderam a desenvolver técnicas de administração de preços que exige grande disciplina. O mesmo produto pode ser vendido por diversos preços em diversos países, levando em consideração diversas estruturas cambiais e tributárias e etc. Essas técnicas não devem desorganizar, contudo, o mercado nem impedir o crescimento deste.
    Dado o reordenamento mundial após o fim da segunda guerra mundial, com a ampliação do poder das empresas oligopolistas, principalmente sob a tutela dos Estados Unidos para a reconstrução da Europa devastada da guerra (e o aumento de sua influência). A menos que pretendam modificar o estilo de vida de sua população e, de alguma forma, perder em grande parte as vantagens que significa integrar o centro do sistema capitalista, qualquer país, independente do seu tamanho, terá de conviver com as grandes empresas oligopolistas, dirigidas de dentro para fora de sus fronteiras, respeitando a autonomia de que necessitam para integrar oligopólios internacionais.
    O crescimento econômico dos países centrais no pós-guerra ocorreu de forma acelerada, mais na Europa e em velocidade menor nos Estados Unidos. Contudo, foram as grandes empresas americanas as que mais se expandiram no plano internacional.
    O rápido crescimento produtivo fora dos Estados Unidos provocou o deslocamento da balança comercial desse país, que tendeu a ser invadido por importações de outras nações industrializadas.
    Sendo o dólar uma moeda “reserva”, o resultado foi o endividamento a curto prazo dos Estados Unidos numa escala sem precedentes, provocando  duas consequências importantes:
  1. A formação de uma massa de liquidez que facilitaria o rápido desenvolvimento do mercado financeiro internacional, ampliando assim o grau de liberdade da ação das grandes empresas oligopolistas; e
  2. O reconhecimento de que o sistema monetário internacional atual se baseia no dólar e não mais no ouro.
O fato de que a emissão dólar é privilégio dos Estados Unidos constitui prova irrefutável exerce com exclusividade a tutela do conjunto do sistema capitalista.

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