Por que as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza





RESUMO DO LIVRO

Livro: Por que as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade da pobreza.
Autores: Daron Acemoglu & James Robinson

Capítulos 1, 2 e 13 analisados.
 

Capítulo 1 - Tão próximo, mas tão distantes

A Economia do Rio Grande

    O texto mostra as diferenças brutais entre Nogales (Estados Unidos) e Nogales (México). As duas cidades são separadas apenas por uma cerca, mas guardam  diferenças gritantes na área econômica, social, infraestrutura, e etc. O que de fato explica tão grandes diferenças, além do fato de uma metade da cidade está situada nos Estados Unidos e outra metade no México? As respostas, segundo o autor, estão nos primórdios do período colonial, quando se instalou uma divergência institucional, cujas implicações se estendem até os dias de hoje.

A função de Buenos Aires

    No começo de 1516, o navegador espanhol Juan Díaz Solís entrou na América Latina pelo Rio de Lá Plata. Os habitantes locais não se submeteram às vontades dos estrangeiros, seja por trabalho ou fornecendo alimentos e ouro e prata, e os expulsaram de lá.
    Em 1534 novamente os espanhóis voltaram e, agora, encontraram um local de clima ameno e fundaram a cidade de Buenos Aires. Os indígenas locais também não se subjugaram aos espanhóis, levando-os a buscar outros locais. Os espanhóis buscavam desesperadamente encontrar um povo que pudessem subjugar ao trabalho e conseguir metais preciosos.
    Buscando novos locais, eis que encontraram as condições ideais e se estabeleceram no local que passaram a chamar de Assunção (hoje Paraguai), cujos indígenas produziam alimentos e cuja resistência foi vencida com certa facilidade. Com isso, a cidade de Buenos Aires foi abandonada e todos os espanhóis da região se voltaram para Assunção.
Os primeiros espanhóis e, como veremos posteriormente, também os ingleses, não tinham o menor interesse em lavrar a terra com as próprias mãos, queriam que outros o fizessem em seu lugar e desejavam riquezas - ouro e prata - para saquear.

De Cajamarca…

    No decorrer do século seguinte a Espanha conquistaria e colonizaria a maior parte da região central, ocidental e sul da América do Sul, ao passo que Portugal ocupara o Brasil, a leste.
    A estratégia de colonização espanhola foi extremamente eficaz, roubando e saqueando metais preciosos dos povos indígenas, além de forçá-los ao trabalho escravo para o fornecimento de alimentos.
    Logo após o saque inicial, os espanhóis começaram a repartir o recurso mais valioso entre si, a população indígena, mediante a instituição do encomienda. Isto é, tratava-se da concessão de lotes de povos indígenas a um espanhol, chamado de encomiendero. Os índios tinham que  pagar ao encomiendero tributos e mão de obra em troca dos quais ele encarregaria de convertê-los ao cristianismo.
    Em todo o universo colonial espanhol nas Américas, adotou-se instituições e estruturas sociais similares. Após uma fase inicial de saques e a ânsia por ouro e prata, os espanhóis criaram uma rede de instituições com vistas à exploração dos povos indígenas. Todas as estratégias adotadas tinham por objetivo rebaixar os padrões de vida dos povos indígenas ao nível da subsistência e, assim, destinar toda a receita excedente aos espanhóis. Para tanto, expropriaram-lhes as terras, forçaram-nos ao trabalho - oferecendo baixos salários - impuseram-lhes impostos elevados e preços caros de produtos cuja compra sequer era voluntária. Como consequência, converteram a América Latina no continente mais desigual do mundo e solaparam boa parte do seu potencial econômico.

… A Jamestown

    Diferente do que ocorreu na América Latina, a colonização da América do Norte demandou outro tipo de colonização. A falta de ouro e prata e de uma população local mais “dócil”, levou os colonizadores a demandar da Inglaterra o envio de homens capacitados para o trabalho, como carpinteiros, ferreiros, pedreiros e demais trabalhadores aptos para a sobrevivência nas novas terras.
    Para atrair pessoas para povoar a região, a Virginia Company (empresa que ocupou a colônia e financiou a exploração) passou a oferecer terras para todos aqueles que se dispusessem  a ir ao novo mundo. Os colonos já existentes ganharam suas casas e foram libertados de seus contratos com a empresa. Com isso, em 1619 foi introduzida uma Assembléia Geral que efetivamente conferiu voz a cada homem adulto nas leis e instituições que regiam a colônia. Era o início da democracia nos Estados Unidos.
    No início de 1720, todos as 13 colônias que viriam a ser os Estados Unidos dispunham de estruturas de governo semelhantes. Em todos os casos havia um Governador e uma Assembléia que representavam os proprietários de terra. Apesar de não ser uma democracia como a conhecemos hoje, ainda assim era bem mais democrática do que no restante das Américas.
    Foram essas mesmas Assembléias e seus líderes que se reuniram em 1774 no Primeiro Congresso Continental, prelúdio da Independência dos Estados Unidos.

Um Conto de Duas Constituições

    Na América do Sul a situação era bem diferente. Com as guerras Napoleônicas, a Espanha viu seu poder e influência sobre as colônias abalados. Entre tantas quedas de reis na metrópole, a colônia do México decretou sua independência e instaurou uma Monarquia local. Com as disputas internas de sua elite, em 1822 foi dissolvido o Congresso que se criou e logo se estabeleceu um regime ditatorial, igual a tantos outros que o sucederam em todo século XIX.
    Dessa forma, enquanto os Estados Unidos começavam a passar pela Revolução Industrial na primeira metade do século XIX, o México empobrecia.

Ter uma idéia, abrir uma empresa, fazer um empréstimo

    A Revolução Industrial teve início na Inglaterra, e lodo se espalhou, chegando rapidamente aos Estados Unidos. Como este era o país mais democrático do mundo à época, não demorou muito para os empreendedores e homens de negócio dominassem a cena.
    Além de incentivar a inovação e da facilidade de patentear as ideias e abrir uma empresa, a expansão do sistema bancário facilitou enormemente o acesso ao crédito e, com o aumento significativo dos bancos, que saltaram de 338 para mais de 27 mil em um século, a concorrência era acirrada e os juros baixos.
    No México, por sua vez, existiam somente 42 bancos, onde 2 deles controlavam mais de 60% do total de crédito disponível no mercado. Resultado direto das instituições políticas que se consolidaram no país após a independência, por todo o século XIX e XX.
    Enquanto os banqueiros americanos se submetiam a uma concorrência muito maior, se submetendo a leis elaboradas por políticos que recebiam incentivos muitos diferentes, engendrados por outras instituições políticas (além de eleições). No México, por sua vez, o monopólio e oligopólios eram a norma econômica, com ligações políticas muito enraizadas.

Mudanças que dependem de trajetória

    A economia mundial apresentou em boom na segunda metade do século XIX, e as inovações nos meios de transporte, como o navio a vapor e as ferrovias, resultaram em enorme expansão do comércio internacional. Tal crescimento, contudo, não se deu de forma equitativa. No México, por exemplo, suas elites locais vislumbravam formas de enriquecer. As instituições estabelecidas contribuíram para o aprofundamento da pobreza e desigualdades, enquanto nos Estados Unidos se consolidou a prosperidade.
    Desde então, a América Latina atravessa uma eterna crise econômica, assolada por ditaduras, conflitos sociais, civis e militares que se arrastam até os dias de hoje. Tal situação ocorre em função da permanência de instituições enraizadas desde a era colonial, que se perpetuam até a atualidade.

Ganhando um bilhãozinho ou dois

    A trajetória dos dois homens mais ricos do mundo, Bill Gates (Americano) e Carlos Salim (Mexicano), demonstra bem essa distinção entre os países.
    Gates fez fortuna com inovação tecnológica de o destacou em todo o mundo. Mesmo assim, não impediu que fosse alvo de processos por abuso de monopólio com relação aos sistemas operacionais para PC. O que resultou em sua condenação, mesmo sendo um dos homens mais ricos do mundo e dono de uma gigante do setor tecnológico.
    No México, por sua vez, Carlos Salim fez fortuna, não por meio de inovação, mas por compra de empresas e outros negócios, em especial na compra da Telmex, monopólio mexicano de comunicações, privatizada na década de 1990 e adquirido por ele graças as suas conexões políticas no México.
    Salim tentou entrar no setor de telefonia nos Estados Unidos adotando as mesmas práticas que usualmente utiliza no México, mas as instituições americanas são diferentes, e logo não obteve êxito em sua jornada.

Rumo a uma Teoria da Desigualdade Mundial

    As diferenças entre as nações são análogas àquelas que separam as duas metades de Nogales, ainda que em escala maior.
    O motivo de Nogales (Estados Unidos) ser muito mais rica que Nogales (México) é simples: trata-se do fruto de instituições completamente distintas de um lado e de outro da fronteira, que geram incentivos diferentes para os habitantes de cada metade da cidade. Os Estados Unidos são muito mais ricos hoje do que o México ou Peru graças ao modo como suas instituições, tanto econômicas quanto políticas, geram incentivos para as empresas, indivíduos e políticos.
    A medida que influenciam comportamentos e incentivos na vida real, as instituições forjam o sucesso ou o fracasso do país. O talento individual é importante em todos os níveis de sociedade, mas mesmo ela requer um arcabouço institucional para converter-se em força positiva. As condições que Bill Gates, e demais americanos, encontram para levar suas vidas, seja no acesso melhor a educação, saúde, infraestrutura, segurança e etc são infinitamente superiores aos dos cidadãos mexicanos, e isso faz toda a diferença para o sucesso pessoal e o desenvolvimento do país.

Capítulo 2 - Teorias que não funcionam

As circunstâncias atuais

    As diferenças entre países desenvolvidos dos subdesenvolvidos são persistentes ao longo do tempo. Se regredirmos em 150 anos, 100 anos, 50 anos e o mesmo hoje, os padrões não mudam. Os países desenvolvidos, Estados Unidos, Europa de uma forma geral, Japão entre outros são os mesmos países do topo do ranking dos mais ricos e desenvolvidos em todos os períodos. Da mesma forma, mas em sentido contrário, a América Latina, África e outros são mesmo países pobres em todo o período.
    Pode-se pensar que o fato de a desigualdade mundial ser tão acentuada, com consequências tão graves e padrões tão nítidos e evidentes, implica que exista para ela alguma explicação que goze de ampla aceitação. Não é o caso. A maioria das hipóteses propostas pelos cientistas sociais para as origens da pobreza e da prosperidade não funciona e revela-se incapaz de explicar, de maneiro convincente, as atuais circunstâncias.

A hipótese geográfica

    Tal teoria enfatiza que a diferença nos níveis de prosperidade dos países ocorre em função das distinções geográficas. Enquanto os países ricos se encontram em zonas temperadas, os países pobres em zonas tropicais e quentes. Tal diferença ainda ocorre por que nessas áreas quentes são mais sujeitas a doenças, como a malária e a pouca qualidade do solo compromete a agricultura.
    A diferença geográfica, por sí só, não consegue explicar as diferenças entre países ricos e pobres. Tal tese não consegue explicar, por exemplo, o caso de Nogales. Não explica igualmente a diferença entre Alemanha Ocidental e Oriental (na época de divisão), nem o crescimento econômico de países como Coreia do Sul e a estagnação da Coreia do Norte
    A questão da saúde também não se sustenta. O adoecimento da população é, em grande parte, consequência da pobreza e da falta de capacidade ou vontade dos governos para tomar as medidas de saúde pública necessárias à sua erradicação.
    No tocante a baixa qualidade do solo, da mesma forma a tese se mostra frágil. A baixa produtividade do solo, sobretudo na África, pouco tem relação com a qualidade do solo. Pelo contrário, é consequência de estrutura de propriedade da terra e dos incentivos criados para os fazendeiros pelos governos e instituições sob as quais vivem. As profundas disparidades no mundo moderno nascidas no século XIX foram causadas pela disseminação desigual das tecnologias industriais e da produção manufatureira, não por diferenças no desempenho agrícola.

A hipótese cultural

    Outra teoria com ampla aceitação é a hipótese cultural, correlacionando cultura e prosperidade. Tanto questões religiosas ou culturais não conseguem explicar satisfatoriamente a desigualdade econômica do mundo. Existem países católicos pobre e ricos, assim como existem países protestantes pobre e ricos. Da mesma forma culturas ancestrais iguais e níveis de vida distintos, como o caso de Nogales.

A hipótese da ignorância

    Uma economia de mercado “em equilíbrio” é aquela onde todos os indivíduos e empresas têm liberdade de produzir, comprar e vender os produtos e serviços que bem entendem. Se essas circunstâncias não forem atendidas, diz-se que existem “falhas de mercado”. Tais falhas constituem a base da teoria da desigualdade do mundo, segundo esta argumentação. Por consequência, basta produzir boas políticas para superar tais “falhas”.
    A hipótese da ignorância sustenta que os países são pobres, devem sua pobreza ao excesso de falhas de mercado e ao fato de que seus economistas e autoridades ignoram como livrar-se delas, tendo dado ouvido a conselhos errados no passado.
    Como mostrado no texto, essa tese também não se sustenta. Inúmeros países pobres possuem economistas e autoridades plenamente capacitados do ponto de vista intelectual para superar a pobreza. Não o fazem porque estão amarrados às instituições que impedem qualquer tipo de mudança.
    A China, por sua vez, só vem conseguindo superar sua condição de pobreza a partir do momento que adotou mudanças institucionais que viabilizaram tal proeza. Com a mudança na política econômica, foi possível criar elementos e instituições que permitiram a China liderar o crescimento econômico mundial a mais de 30 anos.
    A maioria dos economistas e autoridades concentram-se em “acertar”, quando o que é de fato necessário é uma explicação de onde os países pobres estão “errando”. E “erram”, basicamente, não por questão de ignorância ou cultura. Como pretendemos mostrar, os países pobres são pobres porque os detentores do poder fazem escolhas que geram pobreza. Erram, não por equívoco ou ignorância, mas de propósito.
    Para entender melhor, o leitor terá de ir além da economia e das orientações dos especialistas acerca do melhor a fazer e, em vez disso, estudar como as decisões são efetivamente tomadas, quem são seus atores e por que eles decidem fazer o que fazem. Estamos no campo da política e dos processos políticos. A economia tradicionalmente ignora a política, mas compreendê-la é crucial para explicar a desigualdade do mundo.

Capítulo 13 - Por que as nações fracassam hoje

Como ganhar na loteria no Zimbabue

    Em janeiro de 2000 foi realizado o sorteio de uma loteria realizada por um banco parcialmente estatal, o Zimbank. O bilhete sorteado tinha como ganhador Robert Mugabe, presidente (ditador) do Zimbabue.
    O motivo mais comum para as nações fracassarem hoje é o fato de suas instituições serem extrativistas. Isto é, instituições que tem por finalidade a extração de renda e da riqueza de um segmento da sociedade para benefício de outro. Elas concentram poder nas mãos de uma pequena elite e impõem poucas restrições ao exercício de seu poder. A exemplo do México colonial que, na declaração da independência, no lugar de estabelecer uma democracia republicana, estabeleceu um novo reinado formado pela elite daquele país.
    As nações fracassam hoje porque suas instituições econômicas extrativistas são incapazes de engendrar os incentivos necessários para que as pessoas poupem, invistam e inovem, e suas contrapartes políticas lhe dão suporte à medida em que consolidam o poder dos beneficiários do extrativismo. As instituições econômicas e políticas extrativistas, ainda que seus por menores variem sob diferentes circunstâncias, encontram-se sempre na origem do fracasso.


   


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